Sangue do Cordão Umbilical
Sangue do Cordão Umbilical
O sangue do cordão umbilical é rico em células estaminais hematopoiéticas, semelhantes às que existem na medula óssea, que dão origem a todas as células do sangue e do sistema imunitário.
Aplicações terapêuticas atuais
Desde o sucesso do primeiro transplante, em 1988, foram já realizados mais de 60.000 tratamentos de sangue do cordão umbilical, em crianças e adultos, para o tratamento de mais de 90 doenças, principalmente doenças malignas do sangue, como leucemias (e.g. leucemia mieloide aguda) e linfomas, mas também imunodeficiências, anemias (e.g. anemia aplástica, anemia falciforme) e doenças metabólicas hereditárias(1). Consulte a lista completa de doenças aqui.
Atualmente, o sangue do cordão umbilical constitui uma fonte de células estaminais importante no panorama da transplantação hematopoiética a nível mundial, permitindo o acesso desta opção terapêutica a mais doentes.
60 000
Desde 1988, data do primeiro transplante, foram já realizados mais de 60 mil tratamentos de sangue do cordão umbilical(1).
500
Nos EUA, foram realizados cerca de 500 transplantes de sangue do cordão umbilical por ano, no período de 2016-2018(2).
375
Na Europa, realizaram-se, em média, 375 transplantes de sangue do cordão umbilical por ano, no mesmo período(3-5).
500
Segundo um estudo realizado na Europa, mais de 500 crianças com doenças hemato-oncológicas foram transplantadas com células estaminais do sangue do cordão umbilical de um dador familiar, com resultados favoráveis(6).
Os transplantes de sangue do cordão umbilical têm dado passos seguros no nosso país. O primeiro transplante com células estaminais do sangue do cordão umbilical realizado em Portugal foi em 1994, no IPO de Lisboa. Uma criança de 3 anos, que sofria de leucemia mieloide crónica juvenil, entrou em remissão após ser transplantada com as células do sangue do cordão umbilical do seu irmão, colhidas durante o parto.
Segundo dados oficiais, entre 2002 e 2019, foram realizados, em Portugal, mais de 80 transplantes com células estaminais do sangue do cordão umbilical, nos vários centros de transplantação nacionais.
O primeiro transplante de células estaminais do cordão umbilical em Portugal foi realizado em 1994
Ainda bebé, Inês Domingos foi diagnosticada com leucemia mieloide crónica juvenil e internada no IPO de Lisboa. Devido aos resultados insuficientes dos tratamentos com quimioterapia, e da ausência de dadores compatíveis, o médico recomendou aos pais ter outro filho, com o objetivo de realizar um transplante de células estaminais do sangue do cordão umbilical, algo inédito em Portugal na altura. Três meses após o nascimento de João Miguel, e da recolha das suas células estaminais, Inês, então com 3 anos, deu entrada no hospital onde foi realizado o transplante. Agora, já adulta, a leucemia ficou para trás e Inês apenas tem de visitar o IPO uma vez por ano, para exames de rotina.
Comparação entre o sangue do cordão umbilical e a medula óssea
Sangue do cordão umbilical
Medula óssea
Disponibilidade
Imediata, as células estaminais do sangue do cordão umbilical ficam criopreservadas, prontas a ser utilizadas.
Tempo de espera pode ser mais longo, se for necessário encontrar um dador compatível
Número de células necessárias para transplante eficaz
5 a 10 vezes inferior relativamente à medula óssea. Pode limitar a utilização, dependendo do peso do doente e da doença.
Maior relativamente ao sangue do cordão umbilical e permite múltiplas recolhas.
Compatibilidade
Maior tolerância, possibilidade de utilizar amostras mesmo quando a compatibilidade entre dador e paciente não é total.
Menor tolerância, fazendo com que a probabilidade de encontrar um dador compatível seja menor.
Risco de efeitos secundários (doença do enxerto contra o hospedeiro – gvhd)
Menor, comparado com medula óssea.
Maior, comparado com sangue do cordão umbilical.
Tempo de restabelecimento hematopoiético
Cerca de 1-2 semanas mais lento.
Mais rápido.
Risco de desconforto na colheita
A colheita é indolor e não apresenta riscos nem para a mãe nem para o bebé.
A colheita envolve um procedimento cirúrgico simples com anestesia, mas invasivo o que comporta sempre algum risco.
A solução pode estar na própria família
Podem distinguir-se dois tipos de utilização das células estaminais:
Utilização autóloga – são utilizadas as células estaminais do próprio. esta opção é preferida nas doenças que podem ser tratadas com células estaminais do próprio, por evitar complicações de incompatibilidade e rejeição.
Utilização alogénica – o doente é tratado com células estaminais de outra pessoa compatível. Num transplante alogénico, o dador pode ser, ou não, familiar do doente. Contudo, o sucesso do transplante é superior quando ambos (dador e doente) são familiares. Desta forma, a utilização de sangue do cordão umbilical entre irmãos é preferível à de dadores não relacionados(12).
Por estes motivos, em 1995, surgiu, nos EUA, o primeiro banco familiar de sangue do cordão umbilical, com o objetivo de dar às famílias a oportunidade de guardar as células estaminais do sangue do cordão umbilical dos seus filhos, de forma a estarem disponíveis, a qualquer altura, para um eventual tratamento. A partir de 2003, com a fundação da Crioestaminal, esta opção passou a estar disponível também para as famílias portuguesas.
Sangue do cordão umbilical e o futuro
A investigação com células estaminais é das áreas mais promissoras da medicina. Esta realidade é sublinhada pelos milhares de ensaios clínicos em curso com células estaminais de várias fontes, envolvendo milhares de doentes em todo o mundo, para o tratamento de um conjunto muito alargado de doenças (cardiovasculares, autoimunes, neurodegenerativas, etc.). Em 2012, o potencial desta área foi mais uma vez reconhecido pela atribuição do prémio Nobel da Medicina a dois investigadores da área das células estaminais.
Nos últimos 30 anos, as aplicações terapêuticas do sangue do cordão umbilical têm conhecido extraordinários progressos. Um dos mais significativos foi o começo da utilização destas células fora do contexto da transplantação hematopoiética. A primeira utilização de sangue do cordão umbilical em medicina regenerativa aconteceu em 2005, nos EUA, para o tratamento de uma criança com lesões neurológicas. Desde então, tem-se assistido ao uso crescente destas células para o tratamento experimental de problemas do foro neurológico, nomeadamente paralisia cerebral, associado à melhoria dos sintomas. Quinze crianças foram já tratadas com o seu sangue do cordão umbilical, guardado à nascença na Crioestaminal, para este tipo de aplicações.
Atualmente, estão registados mais de 230 ensaios clínicos com células estaminais do sangue do cordão umbilical para aplicações de medicina regenerativa(13). Estas células têm vindo a alcançar resultados promissores em doenças como a paralisia cerebral, a perda auditiva adquirida, a hipoplasia do coração esquerdo (doença cardíaca congénita), a encefalopatia hipóxico-isquémica neonatal (falta de irrigação sanguínea e oxigenação cerebral em recém-nascidos), entre outras. Nestes estudos, são preferencialmente usadas células do próprio, de forma a aumentar a segurança e sucesso do tratamento.